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Entrevista - Edição 85
Sumário
Manoel Manteigas de Oliveira
 
Capacitação é a palavra de ordem
 

A indústria gráfica vem passando por um bom momento. Essa é a opinião do diretor da escola do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) Theobaldo De Nigris, Manoel Manteigas de Oliveira. “A economia cresceu, as empresas fizeram fortes investimentos. A demanda por ensino profissionalizante no nosso setor vem crescendo. Os alunos que fazem nossos cursos, principalmente de nível técnico e superior, têm tido excelente aceitação no mercado”, afirma, otimista, acreditando que a expectativa de crise é pior do que a própria crise. E para o crescimento do setor, a especialização se faz cada vez mais imprescindível.

No Senai, Manoel Manteigas foi instrutor de fotorreprodução gráfica, técnico de ensino (professor de aulas teóricas), coordenador de estágios (profissional que faz a interface entre a escola e as empresas que contratam os alunos) e, finalmente, diretor da Theobaldo De Nigris, estando na direção da escola desde 1996. Esse centro de formação profissional é dedicado aos setores de celulose, papel e gráfica, oferecendo cursos no nível operacional - impressor offset - cursos técnicos (três na área gráfica e um na área de celulose e papel); curso superior de tecnologia em produção gráfica e três programas de pós-graduação. A escola disponibiliza, ainda, um extenso portfólio de cursos de curta duração, o qual chama de “formação continuada”, além de serviços de assessoria técnica, ensaios laboratoriais e informação tecnológica.

“O trabalho contínuo do Senai, sem dúvida, tem feito diferença no aprimoramento da indústria gráfica brasileira. Outra instituição que tem feito um trabalho muito positivo para o aprimoramento da gráfica no Brasil é a Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica (ABTG). Dentre as várias ações que a entidade vem desenvolvendo desde sua fundação, em 1959, destaco a elaboração, adaptação e difusão de normas técnicas para o setor”, defende o diretor nesta entrevista à revista GRAPHPRINT.

 

Marcos Mila
 

GRAPHPRINT - Como foi a sua trajetória e trabalho no setor gráfico e no Senai em todos esses anos?
Manoel Manteigas -
Minha carreira na área gráfica começou como aluno do Senai. Depois de ter concluído o ensino fundamental (o antigo nível ginasial) ingressei na Escola Senai Theobaldo De Nigris para fazer o curso técnico, com especialização em fotomecânica. Isso foi em 1973 e a escola, na verdade, tinha outro nome - “Colégio Industrial de Artes Gráficas Senai-União-Prefeitura”. Naquela época, o curso técnico era desenvolvido junto com o ensino médio, três anos, em período integral. Quando saí, fui trabalhar na Shellmar, indústria de embalagens flexíveis, localizada em São Bernardo do Campo. Nessa empresa eu era fotógrafo, reproduzia artes finais, fazia separação de cores, um pouco de retoque e de montagem. Também fui operador de fotorrepetidora. Todos esses processos mudaram completamente. Era tudo semi-artesanal. Ninguém sonhava ainda com a revolução da computação gráfica. Mesmo assim, cheguei a conhecer um scanner ainda na escola, um modelo totalmente analógico. Fiquei na Shellmar por sete anos, quando fui convidado a participar de um processo seletivo para ingressar no Senai, dessa vez como docente. Entrei e estou na organização desde 1983.

Na minha formação acadêmica, depois do Senai, cursei química industrial, na Escola Superior Oswaldo Cruz. Fiz uma segunda graduação, ciências sociais, pela USP. Freqüentei também uma pós-graduação na Alemanha, na Universidade de Chemnitz, voltada para ensino de tecnologia gráfica, e outra na Universidade Federal de Santa Catarina, esta focada em gestão de instituições de ensino profissionalizante.

GRAPHPRINT - Como o senhor avalia o atual momento do setor gráfico nacional, que está completando 200 anos?
Manoel Manteigas -
Vejo a indústria gráfica brasileira com muito otimismo. O ano de 2008 foi muito bom. A economia cresceu, as empresas fizeram fortes investimentos. A demanda por ensino profissionalizante, no nosso setor, vem crescendo. Os alunos que fazem nossos cursos, principalmente de nível técnico e superior, têm tido excelente aceitação no mercado.

O consumo de mídia impressa no Brasil é muito baixo, em comparação com países do Primeiro Mundo ou mesmo com outros países em desenvolvimento. Isso significa que há um grande potencial de crescimento. Na medida em que os níveis de educação e de poder aquisitivo melhorarem, vai aumentar bastante a demanda por produtos impressos.

Existe uma grande preocupação, hoje, com o futuro da mídia impressa. Uma questão que se coloca, com freqüência, é a eventual substituição do papel impresso pela mídia eletrônica. Outro ponto é o impacto ambiental da nossa atividade. Esses aspectos levam muitos a crer que o futuro do nosso negócio está ameaçado. Na verdade, o futuro de todos os tipos de negócio pode reservar muitas surpresas. A velocidade das inovações tecnológicas torna muito difícil fazer previsões. No entanto, é possível sempre buscar as tendências que têm permanecido constantes ao longo das últimas décadas e que podem nos dar base para planejar o futuro.

GRAPHPRINT - E quais são essas tendências?
Manoel Manteigas -
Uma delas é a convivência das mídias. Rádio e televisão, embora já sendo digitalizados, convivem com cinema, internet, com telefonia móvel e todos esses vêm dividindo espaço com o papel impresso. Para mim, é certo que a participação das diferentes mídias nesse “bolo” da comunicação vai mudar bastante, em favor das mídias eletrônicas digitais. No entanto, não vejo reais razões para crermos na extinção definitiva de qualquer uma delas. Os livros impressos perderão espaço para o e-books? Sem dúvida. A Feira do Livro de Frankfurt mostrou um crescimento importante na venda desses equipamentos. Mesmo assim, acredito que sempre haverá demanda por produtos impressos. Sempre é bom lembrar, também, que as embalagens sempre serão impressas.

GRAPHPRINT - E quanto às questões ambientais?
Manoel Manteigas -
É outro tema pertinente. Existe o mito, bastante disseminado, de que a fabricação de papel promove a destruição de matas nativas. Isso não é verdade. As árvores usadas na produção de celulose são plantadas para essa finalidade. Sem dúvida, são monoculturas que têm um impacto ambiental, mas que podem ser manejadas adequadamente. Por outro lado, as pessoas às vezes pensam nos computadores e nas redes de comunicação como se essas fossem tecnologias limpas, e não são. A fabricação dos computadores, celulares, e-books e outros causa um dano considerável ao ambiente, sem falar no seu descarte. O consumo de energia desses equipamentos também é muito significativo. Não tenho como dizer, agora, se a mídia impressa é melhor ou pior que a eletrônica, mas é um grande erro taxar a gráfica como agressiva ao meio ambiente e a eletrônica como inofensiva. Lembro, ainda, que cada folha de papel que tomamos na mão contém uma grande quantidade de carbono que foi capturado da atmosfera, o que ajuda a reduzir o efeito estufa.

GRAPHPRINT - A que o senhor atribui a evolução da qualidade do setor gráfico brasileiro nos últimos dez anos, reconhecida inclusive internacionalmente?
Manoel Manteigas -
A indústria gráfica brasileira vem acompanhando o fortalecimento da indústria e da economia de um modo geral. Os empresários vêm fazendo pesados investimentos em tecnologia, de forma até muito ousada. A economia brasileira demanda produtos impressos de boa qualidade. Os publicitários são criativos e exigentes. Tudo isso impulsiona a qualidade da nossa produção gráfica.

Acredito que o Senai tem feito uma contribuição muito importante também. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial foi fundado em 1942 e já em 1945 começou a desenvolver formação profissional para o segmento. Desde então a instituição não parou de melhorar seu atendimento nessa área. Na década de 50 foi criada a Escola Senai Felício Lanzara. Em 1971 foi fundada a Theobaldo De Nigris. Buscando o aprimoramento tecnológico, o Senai firmou, naquela ocasião, um convênio de cooperação com instituições italianas. A Itália era fortíssima em tecnologia gráfica naquela época. Depois disso, foi criada a Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica, aliás, o Curso de Tecnologia em Produção Gráfica foi o primeiro em nível superior oferecido pelo Senai-SP. Outras unidades passaram também a oferecer cursos para o segmento gráfico: a Escola João Martins Coube, em Bauru, e a Fundação Zerrenner, no Cambuci, em São Paulo. Esta última é resultado de um convênio entre Senai e a fundação. Em 2009 entra em funcionamento uma nova unidade, em Barueri. Em Campinas, o Senai já inicia a oferta de cursos para formar operadores de pré-impressão. Em Ribeirão Preto, por meio de outro convênio, são oferecidos cursos de iniciação profissional. Esse trabalho contínuo, sem dúvida, tem feito diferença no aprimoramento da indústria gráfica brasileira.

Outra instituição que tem feito um trabalho muito positivo para o aprimoramento da gráfica no Brasil é a Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica - ABTG. Dentre as várias ações que a entidade vem desenvolvendo desde sua fundação, em 1959, destaco a elaboração, adaptação e difusão de normas técnicas para o setor. Mas há muitas outras ações: cursos, seminários, assessoria técnica e publicações.

GRAPHPRINT - Como disseminar conhecimento num cenário composto, em sua maioria, de pequenas e médias empresas?
Manoel Manteigas -
Várias estratégias têm que ser combinadas. Cursos presenciais, com a oportunidade do contato direto com o professor e de “por as mãos na massa”, são indispensáveis. Nesse sentido, o Senai vem, como já foi dito, ampliando sua rede. A instituição também conta com duas escolas móveis. São carretas equipadas para treinamento prático em impressão offset, pré-impressão e serigrafia. Outras estratégias complementares são os cursos oferecidos “in-company” e o ensino a distância. As revistas e a internet também são veículos importantes de disseminação do conhecimento.

GRAPHPRINT - Como o curso superior de Tecnologia Gráfica do Senai tem contribuído para a profissionalização do setor?
Manoel Manteigas -
O curso superior foi implantado em 1998. Sempre que o Senai introduz um curso novo, a principal preocupação é que sua grade, assim como os recursos colocados à disposição dos estudantes, sejam compatíveis com a necessidade do mercado de trabalho. Foi assim que nosso curso foi planejado. Outra preocupação nossa é que o corpo docente seja constituído de profissionais realmente gabaritados. Os professores de matérias técnicas e de gestão têm real vivência no segmento. Tudo isso tem garantido um nível muito alto de empregabilidade (mais de 90%). Mesmo considerando que um percentual alto dos que ingressam no curso já trabalham na área gráfica, esse não deixa de ser um indicador excelente. Esse alto nível de aceitação mostra como esses profissionais são necessários ao desenvolvimento do setor.

Com a implantação do curso superior, o Senai-SP passou a cobrir todos os níveis profissionais dentro da empresa, desde a operação dos equipamentos até a gestão. A partir de 2005 passamos a oferecer também cursos de pós-graduação. São três programas, por enquanto. Dois são voltados para profissionais que já atuam no segmento e o terceiro é para estudantes que concluíram faculdades de comunicação, design, publicidade, marketing e outras áreas relacionadas com a produção de mídia.

GRAPHPRINT - Quais as parcerias que a escola tem com empresas do setor e como elas têm contribuído para o sucesso do curso?
Manoel Manteigas -
Convênios de cooperação com diversas empresas e instituições têm sido muito importantes para o desenvolvimento da escola. É muito difícil manter a estrutura de oficinas e laboratórios sempre atualizada, pois os investimentos são altíssimos. Graças às parcerias temos recebido doação de equipamentos, matérias-primas e softwares. Também temos vários acordos de comodato, em que a empresa cede o uso de equipamentos, podendo substituí-los periodicamente por modelos mais novos. A principal contrapartida que esses parceiros recebem é o próprio conhecimento das suas marcas pelos estudantes. Muitos desses alunos, quando estiverem no mercado, serão formadores de opinião e vão influenciar nas decisões de investimentos nas gráficas. Os parceiros também podem usar as instalações da escola, desde que sem prejuízo das atividades de ensino, para eventos técnicos, lançamentos, demonstrações para clientes e treinamentos. Eu não gostaria de enumerar aqui essas parcerias porque são muitas e corremos o risco de cometer a injustiça de excluir algum nome por falta de espaço.

GRAPHPRINT - O presidente da Fiesp anunciou investimentos de R$ 35 milhões para a Escola Senai Theobaldo De Nigris durante o 14º Congraf. Como será aplicado esse dinheiro?
Manoel Manteigas -
Esse investimento, que já vem sendo feito gradualmente, não é apenas na Theobaldo De Nigris, mas em todas as unidades que o Senai-SP mantém para atendimento ao setor gráfico. Inclusive, estão em fase final as obras de uma nova escola localizada em Barueri, fruto de um convênio com aquele município. A prefeitura de Barueri está cedendo o terreno e a construção do prédio. O Senai-SP vai arcar com os equipamentos e com todos os custos de operação. A nova escola também vai contar com parcerias. A Heidelberg vai ceder, em comodato, equipamentos de impressão offset, pré-impressão e acabamento. A DuPont vai ceder equipamentos para clicheria de flexografia. Outros acordos estão sendo negociados.

Para a Theobaldo foram adquiridos novos computadores, quatro novas impressoras offset monocolor e uma de quatro cores, esta com secagem UV. Também foram compradas máquinas de acabamento: alceadeira, dobradeira, impressora corte e vinco automática. Estamos recebendo mobiliários totalmente novos. O auditório da escola já foi reformado. Está em estudo o projeto de uma reforma bem mais ampla nas oficinas e salas de aula.

GRAPHPRINT - Em sua opinião, como a crise internacional pode afetar o setor para o próximo ano?
Manoel Manteigas -
Essa é uma questão difícil de responder, mas eu sou otimista. É claro que não será um ano fácil, até porque a expectativa da crise, às vezes, é pior que a própria crise. Acredito que todos os recursos que estão sendo injetados no sistema financeiro vão surtir efeito, a tempo de preservar a chamada economia real de danos piores. A Fiesp e o Senai-SP têm definido diretrizes muito positivas, que apostam no desenvolvimento. Os investimentos já citados são o melhor exemplo, mas, além disso, em 2009 vamos ampliar as vagas de cursos gratuitos. A ordem do presidente do Senai-SP é aumentarmos 10 mil vagas em cursos técnicos e 90 mil vagas em cursos de formação continuada gratuitos em todo o Estado de São Paulo e em todos os segmentos, não apenas gráfico.

GRAPHPRINT - Quais principais tendências que o senhor vê para o setor gráfico num futuro próximo?
Manoel Manteigas -
Várias tendências vêm se desenhando já há anos: integração dos processos produtivos e de gestão; redução dos impactos ambientais; redução dos tempos improdutivos; enobrecimento dos impressos. A ‘novidade’, embora o mercado já esperasse por isso, foi o salto tecnológico da impressão em jato de tinta, como a Drupa mostrou claramente.

 
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