O panorama atual
Como todo país continental, o Brasil tem números exuberantes para apresentar em vários setores. A indústria gráfica é um deles. Conforme dados do IBGE/Secex/MTE/Rais (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/ Secretaria de Comércio Exterior/ Ministério do Trabalho e Emprego/Relação Anual de Informações Sociais), o valor da produção gráfica alcançou, em 2007 (dado mais recente até o fechamento desta edição), aproximadamente R$ 17 bilhões, o que equivale a uma participação de 0,86% do PIB nacional, e de 3,71% quando considerada a participação no PIB industrial.
Setor fortemente dominado por empresas de pequeno e médio portes, com predominância de estruturas familiares, o mercado gráfico comporta 19.550 empresas, gerando emprego para 197 trabalhadores.
A balança comercial do setor ainda é deficitária: foram US$ 40 milhões de saldo negativo em 2007 - importações de US$ 319 milhões contra US$ 279 milhões de exportações.
Do ponto de vista de segmentação, a indústria gráfica conta com nove segmentos industriais: formulários, livros, etiquetas, impressos promocionais, embalagens, cadernos, impressos mídia exterior, impressos fiscais e envelopes. O editorial é o que abocanha a maior fatia de participação no faturamento, com 37,30% (veja Quadro 1)
Perfil das gráficas
O Estado de São Paulo concentra o maior número de empresas gráficas (36%), contabilizando mais que o triplo do segundo estado em número de gráficas, Minas Gerais (11%) (veja Quadro 2)
Considerando o número de funcionários como critério para estabelecer o tamanho das gráficas, chega-se à conclusão que apenas 0,5% do total de empresas - ou 98 - é de grande porte. A esmagadora maioria (96,4%) é formada por gráficas pequenas.
Outra constatação é que o número de funcionários por estabelecimento, no período de dez anos, oscilou relativamente pouco, tendo seu ápice em 2000 (11,3) e seu índice mais baixo em 2007 (10,1). (veja Quadro 3)
Quando se analisa o período 1998/2007, constata-se consistente evolução tanto no número de empresas como no de empregados: em 1998 havia pouco mais de 13 mil gráficas e 160 mil funcionários; em 2007 os números saltam para 19 mil gráficas e 197 mil funcionários. Interessante notar que, apesar de ambos os índices apresentarem expansão, cresceu mais, na década, o número de empresas (46%) que o de empregados (23%). (ver Quadro 4)
Investimentos
Uma das justificativas para a indústria gráfica brasileira equiparar-se tecnologicamente com a de outros países economicamente mais fortes é o enorme montante que vem direcionando à aquisição de equipamentos nos últimos dez anos. Em 2007, por exemplo, o crescimento no volume de importações de máquinas e equipamentos cresceu 241% sobre o ano anterior, representando um total de US$ 1,4 bilhão – em 2006, o valor foi de US$ 419 milhões.
Entre os setores que mais compraram estão a impressão (US$ 626,6 milhões), flexografia (US$ 331,2 milhões), acabamentos (US$ 122,9 milhões), diversos (US$ 667,5 milhões), offset plana (US$ 248,3 milhões), pré-impressão (US$ 8,8 milhões), outras impressões (US$ 4,7 milhões) e offset rotativa (US$ 47 milhões).
Balança comercial
De 2000 a 2007, conforme dados do Secex, o saldo comercial da indústria gráfica brasileira oscilou bastante, registrando déficit na maioria dos anos. Somente em 2003 e 2004 o saldo revelou-se positivo, com US$ 61,60 milhões e US$ 58,23 milhões, respectivamente. Em 2000 aconteceu o maior déficit do período, quando as importações bateram na casa dos US$ 271,06 milhões, contra US$ 151,21 milhões de exportações.
Analisadas isoladamente, as exportações do setor cresceram ano a ano, exceto em 2005, quando houve recuo de 12,25% sobre o ano anterior, assinalando US$ 175,99 milhões.
Já as importações apresentaram comportamento diferente: foram sendo reduzidas de 2000 até 2003, quando retomaram força, voltando a registrar crescimento de 9,6% (2004/2003), 26,5% (2005/2004), 17,6% (2006/2005) e superando os 50% em 2007 sobre 2006. (ver Quadros 5 e 6)
Na comparação de 2007 com 2006, os segmentos de envelopes e de cadernos foram os que mais contribuíram para as exportações do setor. Enquanto as embalagens cresceram sua participação de 27% em 2006 para 32% em 2007 - sagrando-se o item principal de vendas externas naquele ano -, os cadernos perderam participação, de 30% em 2006, para 23% em 2007. Cartões e livros vêm na seqüência, representando 16% e 15%, respectivamente. (ver Quadro 7)
Em relação às importações, os livros foram, de longe os mais comprados no mercado internacional pelo setor, com quase o dobro de participação na balança comercial: 42% em 2006 e 45% em 2007. Interessante notar que o segmento envelopes não assinalou importações. (ver Quadro 8)
Finalizando, conclui-se que comparando o ano de 2006 com o de 2007, o saldo da balança comercial da indústria gráfica se deteriorou 163%.
De artes gráficas para indústria gráfica
Muitas mudanças puderam ser observadas nos últimos dez anos da indústria gráfica. Algumas delas de caráter mercadológico. Se antes os clientes procuravam as gráficas para realizar seus trabalhos, hoje são as gráficas que procuram os clientes. Tal alteração demandou um novo posicionamento do gráfico, que teve de incorporar princípios de gestão voltada ao cliente; com isso, se profissionalizou e tornou-se empresário gráfico.
A qualidade dos impressos, que anteriormente era limitada, transformou-se em requisito básico na compra do serviço gráfico. Para atender novas exigências, a tecnologia foi imprescindível e teve de derrubar a então existente (e persistente) reserva de mercado. A produção gráfica, então, registrou um salto evolutivo, de artesanal para industrial, de local para global. O valor do produto passou a não ser mais a forma de se mensurar o resultado do trabalho impresso. Em seu lugar surgiu o valor agregado, o “algo a mais” que o produto impresso passou a oferecer.
À medida que foi sendo seduzida pela globalização, a indústria gráfica se viu frente a uma variedade nunca vista de opções. Decisões se fizeram necessárias: seguir o caminho editorial ou comercial? Com baixas, médias ou alta tiragens? E a atualização tecnológica: impressão plana, rotativa ou híbrida? Fluxo digital ou analógico? Pré-impressão com CTF ou CTP? Interna ou terceirizada? E o acabamento: in line ou off line? Interno ou terceirizado?
Desafios
Com tantos caminhos possíveis de serem trilhados, não poderiam deixar de existir desafios. E eles têm se multiplicado nos últimos dez anos. Talvez um dos mais prementes seja a mudança do paradigma tecnológico na indústria gráfica, que avança a passos rápidos rumo ao processo digital.

A convivência com outras mídias, notadamente com as relacionadas à web, trouxe perdas e ganhos. Muitos “futurólogos” decretaram o fim do impresso, mas até aqui tem se presenciado o inverso: crescimento de tiragens e de número de publicações.
O estímulo à leitura, principalmente em regiões interioranas e distantes dos grandes centros urbanos, é outro desafio para o crescimento da indústria da impressão. Sem a criação do hábito de leitura não haverá novos consumidores.
A informalidade é um mal em ascensão no setor. A contenção da migração de gráficas do mercado formal para o informal também se revela uma meta a ser alcançada.
Os mecanismos de compra, até aqui utilizados pelo governo, carecem de ajustes e adequação. Não se pode esquecer que o governo tem sido, por intermédio, por exemplo, do PNDL - Programa Nacional do Livro Didático, um dos maiores compradores de serviços gráficos.
O desenvolvimento sustentável do setor é outro objetivo premente. Não haverá como existir no futuro próximo sem políticas absolutamente transparentes e eficazes de desenvolvimento ambiental sustentável para todas as empresas que integram a cadeia produtiva da indústria gráfica.

O acesso a financiamento também terá de ser facilitado. Sem capital, as empresas gráficas, até por conta dos altos investimentos necessários para se manterem competitivas, não sobreviverão.
E, por fim, outro desafio que depende da atuação conjunta do setor e governo é a defesa dos interesses da indústria gráfica brasileira nos acordos internacionais de comércio.
Tendências tecnológicas
Baseada em números e comportamentos de mercados, como o americano e europeu, a indústria gráfica nacional prepara seus próximos capítulos. E as tendências, em função do mercado, são: menor volume de impressos por rotogravura; mais inkjet; menos offset; mais flexografia; e, sobretudo, mais concorrentes, como quiosques, copiadoras, e-photo etc.
O crescimento da indústria gráfica - com base em dados das indústrias gráficas americanas - deverá acontecer em três segmentos: páginas impressas em tecnologia digital (nos Estados Unidos, de 2004 a 2008, o incremento neste segmento foi de 19,7% ao ano); grandes formatos impressos em tecnologia digital (31,5% ao ano); e em serviços complementares, como manuseio, facas, vernizes, envelopamento, criação, serviços de web etc. (34,2% ao ano).
O que foi 2007
A indústria gráfica brasileira encerrou o exercício de 2007 com crescimento próximo a 4,5%. A receita de vendas no período foi de cerca de R$ 17 bilhões (US$ 9,60 bi), ante R$ 16,27 bilhões (US$ 7,57 bi) em 2006. Os dados são do Departamento de Estudos Econômicos (Decon) da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf).
A maior novidade ficou por conta da retomada dos investimentos. De janeiro a dezembro de 2007, as importações de máquinas e equipamentos totalizaram US$ 1,43 bilhão, 241% acima dos US$ 419 milhões gastos no mesmo período de 2006. Os segmentos de impressão e flexografia foram os que mais contribuíram para esse resultado, somando, respectivamente, US$ 627 milhões e US$ 331 milhões. "Desde 1997, quando os investimentos chegaram a US$ 1,4 bilhão, o setor não vivia um momento tão bom para aquisição de equipamentos", destaca Alfried Plöger, presidente da Abigraf Nacional.
O ano também foi positivo em relação ao mercado de trabalho. No período, foram criados 6.985 novos postos. Dessa forma, o setor encerrou o exercício com o contingente de 197.353 pessoas empregadas nas 19.550 empresas que compõem o parque gráfico nacional. Em relação ao mesmo período do ano anterior, o crescimento foi de 3,3%.
A valorização do real frente ao dólar americano provocou forte queda na balança comercial do setor gráfico. O saldo comercial em 2007 fechou com déficit de US$ 40 milhões, com variação negativa de 162% ante resultado alcançado em 2006.
Estimuladas pela valorização da moeda brasileira, as importações do setor, no período em referência, totalizaram US$ 319 milhões; um crescimento de 50% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Os dados mostram que as importações no segmento editorial em 2007 somaram US$ 133 milhões, contra US$ 96 milhões em 2006, representando, assim, um aumento de 39%. Outros segmentos também responsáveis pelo forte incremento das importações são cartões impressos (que gerou US$ 71 milhões em 2007) e impressos publicitários, que pertence ao segmento promocional (que acumulou US$ 37 milhões em importações no mesmo período).
Já as exportações de produtos gráficos em 2007 cresceram apenas 0,8%, totalizando US$ 279 milhões. Os segmentos com melhor desempenho nesse quesito foram: embalagens, com US$ 88 milhões, e cadernos, com US$ 63 milhões.
Impactos da crise
A balança comercial da indústria gráfica, no acumulado de janeiro a setembro de 2008, manteve-se negativa em US$ 55,9 milhões, ante US$ 52,1 milhões no acumulado até agosto. Nos últimos 12 meses (outubro/07 a setembro/08), o déficit soma US$ 104,7 milhões. As informações são do Departamento de Estudos Econômicos (Decon) da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), com base em dados da Secretaria do Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
As importações de impressos, de janeiro a setembro de 2008, somaram US$ 255,6 milhões (crescimento de 21,6% em relação ao mesmo período do ano anterior). As exportações atingiram US$ 199,6 milhões (retração de 8,6% em comparação ao mesmo período de 2007).
O acumulado das importações nos últimos 12 meses chegou a US$ 365,1 milhões, representando aumento de 31,1% em relação ao período de outubro/06 a setembro/07.
O acumulado das exportações nos últimos 12 meses alcançou US$ 260,3 mi, com retração de 6,6% em comparação ao período de outubro/06 a setembro/07.
De acordo com o presidente da Abigraf Nacional, Alfried Plöger, o setor havia conseguido reverter nos últimos anos o histórico saldo negativo de sua balança comercial. Posteriormente, o câmbio desfavorável, com a apreciação do real, foi um forte fator para o recrudescimento do déficit.
Cadernos e embalagens
A crise internacional deve limitar a capacidade de expansão dos produtos exportados pela indústria gráfica brasileira, especialmente cadernos e embalagens. A afirmação é do presidente da Abigraf São Paulo, Fabio Mortara. A depreciação do real, por outro lado, pode contribuir para a redução do déficit da balança comercial do setor, estimulando as exportações e reduzindo as importações.
“Os Estados Unidos consomem 70% das exportações brasileiras de cadernos, e a crise vai afetar fortemente esse produto”, explica Mortara. Em setembro, o saldo positivo da balança do segmento de cadernos ficou em US$ 252 mil (no ano passado, no mesmo mês, o saldo ficou em US$ 1 milhão).
Com relação a embalagens, as exportações para países desenvolvidos devem diminuir. “Porém, a produção não deverá ser afetada, pois será absorvida pelo mercado interno”, afirma o empresário. A balança comercial do segmento em setembro foi de US$ 1,4 milhão (em setembro de 2007, o saldo ficou em US$ 921 mil).
Perspectivas para 2008
Dando continuidade ao ciclo de crescimento dos últimos anos, a indústria gráfica deve ter um incremento entre 4% a 5,5% em 2008. "Acreditamos que haverá continuidade de expansão da economia, com aumento do emprego e da renda. Em decorrência, esperamos maior sofisticação da demando interna por produtos gráficos, o que explica a nossa expectativa otimista para o próximo ano", enfatiza Plöger. Ele salienta, ainda, que existem muitos desafios a serem superados, dentre eles: conter a migração de empresas para o mercado informal; adequar os mecanismos de compras governamentais dos produtos gráficos; estimular a leitura no Brasil; desenvolver programas de desenvolvimento ambiental sustentável para as empresas do setor; ampliar o acesso à tecnologia gráfica; melhorar o acesso das empresas a financiamentos; promover a defesa dos interesses da indústria gráfica nos acordos internacionais de comércio.
Outra preocupação diz respeito ao mercado externo. As exportações de cadernos não se sustentarão no mesmo patamar de 2006, independentemente do embargo americano aos chineses. A entrada de outros concorrentes naquele mercado faz com que os produtos gráficos brasileiros percam competitividade, especialmente em função do câmbio. Portanto, a balança comercial do setor deverá se tornar ainda mais negativa no próximo ano.
Apesar desse quadro negativo, Plöger lembra que as exportações representam menos de 2% das vendas gráficas totais, o que não chega a afetar, de forma muito significativa, o desempenho final do setor.
(*) todas as informações contidas neste artigo foram fornecidas pela Abigraf |