Nunca na história desse País a indústria de papel e celulose passou por um momento tão bom. Havia séculos que a indústria patinava entre o crescimento e algumas oscilações um pouco desagradáveis. O desempenho das fabricantes de papel e celulose conquistou destaque no Indicador do Nível da Atividade (INA) da indústria paulista em julho passado, medido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Quando comparado o mês de julho passado com igual período de 2007, o setor registrou aumento de 22,7% na atividade, ante 9,4% da média geral. As vendas subiram 29,3% até julho, ante 6,9% do índice médio. O cálculo da Fiesp considera fatores como faturamento e produtividade.
Até agosto, as exportações de papel e celulose (em volume) avançaram 16%, saltando para R$ 4,3 milhões. As transações foram 35% maiores que no ano passado. O fôlego crescente começa a ser sentido por todos os fornecedores da cadeia de papel e celulose. Recentemente também foi explanado pelo jornal Gazeta Mercantil, por meio de reportagem assinada por Anna Lúcia França, que o Brasil deve ultrapassar a China na produção de celulose até 2012. Ainda de acordo com a mesma reportagem, o Brasil superará a marca de 18 milhões de toneladas produzidas anualmente, o que dá ao País a possibilidade de subir ao terceiro lugar do ranking.
Dois dos mais tradicionais produtores de celulose - Suécia, com 12 milhões de toneladas, e Finlândia, com 13 milhões de toneladas -, serão ultrapassados na fabricação da polpa pelo Brasil. Gigantes começam a perder espaço dando lugar para novos (ou nem tão novos assim) competidores.
A movimentação, inerente a qualquer mercado globalizado, começa a espalhar poder em territórios novos. A Europa e a América do Norte, regiões já responsáveis por grande parte do fornecimento da pasta, praticam preços fora de cogitação; e o grande pulo-do-gato brasileiro foi apostar na fibra curta oriunda do eucalipto. “O Brasil é o maior produtor de celulose de fibra curta do mundo; acontece que essa fibra supera a longa, pois os países nórdicos, juntamente com Canadá e Estados Unidos, são todos produtores de papéis de fibra longa. Na Finlândia, que é uma grande produtora, e na Suécia, uma árvore leva 50 anos para poder ser cortada, e são florestas nativas. Lá ninguém planta árvore, cortam floretas nativas. No Brasil, ninguém corta árvore nativa para fazer papel, e o eucalipto plantado aqui está pronto para virar papel em sete ou oito anos aproximadamente”, diz Théo Borges, presidente da diretoria executiva da Associação Nacional dos Profissionais de Venda em Celulose, Papel e Derivados (Anave), acrescentando que o trinômio brasileiro sol, solo e água faz a diferença.
Plenamente sustentáveis
Mesmo que não queira se aprofundar no assunto, rapidamente é possível concluir que a indústria de celulose e papel brasileira é sustentável, sim. Utilizamos exclusivamente florestas plantadas de pinus e eucalipto para a produção de celulose e papel. De acordo com Elisabeth Carvalhaes, presidente executiva da Associação Brasileira de Celulose de Papel (Bracelpa), desde a base florestal, a preservação é um aspecto presente em todas as etapas do processo produtivo, seja no manejo do solo, no uso dos recursos hídricos ou também nos processos de manufatura. Conforme dados da própria associação, dos 5,5 milhões de hectares de florestas plantadas do Brasil, 1,7 milhão de hectares corresponde às áreas de eucalipto e pinus para a produção de celulose e papel, o que representa 0,2% das terras agricultáveis do País. O esforço desprendido nas floretas plantadas preserva - mantendo intactos - 2,8 milhões de hectares de matas nativas. “Se juntarmos o tripé formado por florestas plantadas, matrizes energéticas limpas e o seqüestro de carbono, fica claro que o Brasil está minimizando o aquecimento global em três frentes. O setor de celulose e papel tem potencial para atuar como protagonista no combate às alterações climáticas”, afirma a presidente executiva da Bracelpa. Um balanço emitido pela associação, que é a entidade responsável pela representação institucional do setor no País e no exterior, retrata que as 220 indústrias de papel e celulose existentes no Brasil emitem 21 milhões de toneladas de CO2 por ano, enquanto o 1,7 milhão de hectares plantados com eucalipto absorve 63 milhões de toneladas.
Zeila Piotto, diretora da Apoena Assessoria Ambiental, sabe que o setor já melhorou muito, mas evoluir é sempre necessário. A profissional atuou diretamente na área ambiental no setor de celulose e papel por onze anos, e é formada em engenheira química, com mestrado em engenharia ambiental (UFES), e doutorado em engenharia hidráulica e sanitária (Poli-USP). “Precisamos evoluir muito ainda. Citaria alguns exemplos: estabelecer uma agenda positiva para o setor, que tenha no seu bojo a ecoeficiência, assim como práticas de atuação responsável; promoção de diálogo com a sociedade por meio de uma atuação transparente e ética; promover a governança no âmbito empresarial, integrar de fato e não só no discurso a dimensão ambiental e social na gestão dos negócios; ampliar o uso das ferramentas de ecoeficiência, em especial das de análise do ciclo de vida, rotulagem ambiental, contabilidade ambiental e certificação florestal, incluindo a madeira oriunda do fomento, por exemplo. Com esse exemplo é possível conhecer e avaliar melhor os aspectos e impactos negativos da empresa ou setor e, conseqüentemente, promover a sua gestão visando a prevenção da poluição em toda a cadeia produtiva, a melhoria contínua e a redução de conflitos”, ressalta Zeila, que além do currículo invejável também se especializou em tecnologias ambientais na produção de celulose e papel, curso promovido pela agência Sida, da Suécia.
A ecoeficiência
“Nós na Eco” é uma jargão publicitário criado para a indústria automotiva vender seu produto. “Nós na ecoeficiência” é uma bandeira que deve ser levantada por todas as empresas do setor de celulose e papel. Ser ecoeficiente significa alcançar o fornecimento de bens e serviços a preços competitivos, que satisfaçam às necessidades humanas, proporcionando qualidade de vida. Logicamente que uma de suas atribuições principais é reduzir o impacto ambiental e diminuir sistematicamente o consumo dos recursos durante o ciclo de produção - e da vida útil - das linhas de produtos.
A grande magia da ecoeficiência é alcançada quando o envolvido consegue ser sinérgico em dois elementos: produtividade/lucratividade e responsabilidade ambiental. Usar racionalmente matéria-prima e energia, reduzir os riscos de acidentes e melhorar a relação da organização com as partes interessadas (stakeholders) são dogmas da ecoeficiência. Alguns elementos constituem a ecoeficiência: redução do consumo de materiais e energia com bens e serviços; redução da dispersão de substâncias tóxicas; intensificação da reciclagem de materiais; maximização do uso sustentável de recursos renováveis; prolongamento da durabilidade dos produtos e aumento do valor agregado aos bens e serviços. “Ser ecoeficiente é ter como missão contribuir para a preservação do ambiente e, em conseqüência, do planeta; é ser socialmente justo e correto e criar condições de uma vida digna para as pessoas, sendo uma empresa economicamente viável”, exemplifica José Antônio Viana, gerente comercial do Grupo Bignardi.
Para Carlo Bulgarelli, consultor de marketing da VCP, de uma forma geral a ecoeficiência pode ser interpretada como a garantia da produtividade, utilizando-se, para isso, menos recursos da natureza. “Encaramos a ecoeficiência como uma série de ferramentas de gestão ambiental e produtiva que visa avaliar o desempenho de produtos, processos e serviços de forma integrada a uma avaliação econômica. A VCP implantou em 2006 o conceito dos 4Rs: repensar o consumo; reduzir; reutilizar e reciclar. Durante esses dois anos, foram implantadas ações para a redução de recursos na produção, que culminaram com o Projeto Excelência em Jacareí, São Paulo, e que contribuem para garantir o crescimento contínuo da empresa. Ao longo dos anos, a Votorantim Celulose e Papel investiu na melhoria do seu processo produtivo, buscando eficiência e o aumento da produção com redução na utilização de recursos naturais. O trabalho realizado fez com que a empresa se tornasse referência no mundo com relação ao uso da água para produção de celulose, por exemplo. A sustentabilidade faz parte do DNA da VCP, que está atenta aos cinco elementos que permeiam a sua atividade: água, ar, energia, terra e pessoas”, complementa Bulgarelli.
Para o Grupo Orsa, ser ecoeficiente significa nortear cada ação da empresa pela noção de responsabilidade com o ambiente e de viabilidade dos meios de atuações sustentáveis. “A eficiência que buscamos engloba, ainda, projetos que propiciem o desenvolvimento social e econômico das comunidades em que as unidades do grupo estão inseridas. Somente a partir do entendimento do entorno, somado às questões ambientais, sociais e econômicas, é que uma empresa consegue atingir suas metas com justiça e atenção às necessidades de seus colaboradores e da comunidade. Nosso norte no caminho da sustentabilidade pode ser traduzido pelo conceito dos 3 Ps: people (pessoas), profit (lucro) e planet (planeta). Esse é o conceito de sociedade sustentável e o caminho que trilhamos”, explica Sérgio Amoroso, presidente do Grupo Orsa.
Um bom exemplo do conceito adotado pelo Grupo Orsa é o programa de fomento florestal, realizado no Vale do Jari (região entre os Estados do Pará e do Amapá) e no sudoeste do Estado de São Paulo, por meio do qual a empresa investe na lavoura de pequenos e médios produtores e realiza compra antecipada do cultivo. “Como no entorno de nossas unidades há centenas de pequenos agricultores com terra disponível para mais culturas além daquelas que plantam tradicionalmente - e o que eles precisam para diversificar suas plantações e ter um conseqüente aumento de renda são as mudas e o know-how para que possam começar um novo cultivo -, o grupo oferece as mudas e os especialistas, que capacitam e fazem o acompanhamento desses agricultores. Depois, nossas empresas compram a matéria-prima dos agricultores. Criamos, assim, um ciclo ecologicamente eficiente, além de social e economicamente responsável”, detalha.
Robinson Cannaval, gerente de marketing - área de impressão e conversão da International Paper, observa que a ecoeficiência não é apenas produzir mais com menos. “Para nós, é a produção de nossos produtos com o menor impacto possível do ponto de vista ambiental. Consideramos também que a questão custo não é só produzir mais com menos; é aquilo de melhor que podemos fazer com os recursos que temos à disposição. Inserimos no que tange à ecoeficiência um componente social e também econômico. Como é um termo relativamente novo na sociedade, quando tratamos dela estamos falando a respeito do processo e seus impactos. Ecoeficiência refere-se à cadeia com todos os processos que vão do berço ao túmulo em relação ao produto”, conceitua Cannaval, aproveitando a ocasião para fazer uma ressalva num dos elementos da ecoeficiência - a redução da dispersão de substâncias tóxicas: “Trata-se de um item relativamente pesado. Tecnicamente, posso dizer que não existem substâncias tóxicas; o que existem são concentrações tóxicas. Não posso concordar com ele, pois o conceito técnico e jurídico de tóxico não é ausência ou presença de substância e sim sua concentração. É a mesma coisa do medicamento que em baixa concentração é um remédio e em altas quantidades é tóxico. A radioatividade, por exemplo, também é tóxica, só que somente a partir de um determinado nível; o mercúrio, como elemento, é tóxico, mas certamente o temos dentro do organismo em quantidades que não atingem níveis de toxicidade. A partir do momento que a dispersão é tóxica, não podemos dispersá-la, tendo em vista o conceito de que toxicidade é quantidade, concentração, e não substância. E a substância que mais temos hoje, como subproduto da nossa principal matéria-prima, que é a floresta, é a geração de oxigênio, que é, conseqüentemente, o subproduto da fotossíntese. Partindo da premissa de que 88% da matéria-prima do nosso papel advém de árvores, e o subproduto da árvore é o oxigênio, afirmamos que a indústria não tem quase nada de geração de resíduos. O que é entendido como resíduo nessa indústria é a geração de oxigênio. Lógico que na fábrica temos uma geração de resíduo, como em qualquer processo industrial, mas é por isso que temos processos de ecoeficiência”, explica Cannaval.
Zeila cita que as principais ferramentas que podem ser utilizadas no âmbito empresarial para viabilizar a ecoeficência são: Ecolab (selos verdes); LCA (análise de ciclos de vida); EAc (contabilidade ambiental); CP (produção limpa); DfE (design ambiental); SEM (sistema de gestão ambiental) e EPE (avaliação de performance ambiental). Afirmar que resíduos são inerentes a qualquer processo, claro, não surpreende ninguém, mas de acordo com Borges, da Anave, o setor de celulose e papel tem quase toda a cadeia de custódia perfeita. “Lógico que chega um momento em que alguma coisa se perde, mas é uma indústria sustentável. O Brasil alcançou todas essas evoluções em função da tecnologia implantada e da genética desenvolvida. Hoje, grande parte do papel é reciclado; quase 80% de todas as caixas de papelão são recolhidas e recicladas. O índice de reciclagem de papel é de 42% aproximadamente. Como um todo, é um dos maiores do mundo”, assegura.
O despertar do gigante
Lapidado há décadas, o setor brasileiro de celulose e papel, comprovadamente, reveste sua espinha dorsal para que esta sustente adequadamente sua massa muscular. O gigante, que já reflete sua sombra magnífica ao despertar vigorosamente, não pode se ancorar em estruturas não confiáveis. E o ar que entra em seus pulmões tem que, obrigatoriamente, chegar limpo e repleto de nutrientes. “Sem dúvida o Brasil é o País com essas qualificações. Nossas florestas são ambientalmente corretas; toda a celulose produzida vem de florestas plantadas dentro do conceito da preservação ambiental. Não produzimos celulose ou papel a partir de florestas nativas”, reafirma Viana.
Somos usados como referência e é por isso que os olhos mundiais estão voltados para os passos seguintes do gigante verde-amarelo. “O Brasil já é referência mundial, tanto no quesito ambiental como comercial. Somos destaque na produção de tecnologias sustentáveis para plantio e manejo de eucalipto. No lado econômico, o País possui enormes vantagens competitivas em relação aos demais competidores globais, principalmente aqueles do Hemisfério Norte. O ciclo de colheita de eucalipto no Brasil pode chegar a seis anos, enquanto que em outros países, que produzem celulose a partir de outras árvores, como acácia, bétula e mata tropical, chega até a 25 anos. O chamado custo-caixa de produção no Brasil, de US$ 313 por tonelada, também é um dos menores do mundo. Hoje, conseguimos aliar competitividade e produção sustentável no mesmo pacote. O Brasil está preparado, sim, para se firmar como grande podutor de celulose e ainda garantir a conservação do ambiente em que atuamos devido às tecnologias hoje existentes”, destaca Bulgarelli, da VCP.
Amoroso, do Grupo Orsa, avaliza e dá créditos ao gigante: “O Brasil é um país competitivo que incentiva a certificação, o uso racional dos recursos e as práticas de responsabilidade socioambiental. Esses incentivos agregam valor às empresas, sendo um diferencial que as torna ainda mais competitivas. Ao lado disso, penso que estão ainda mais preparadas aquelas empresas que conseguem equilibrar a expectativa de lucro com o cuidado com o planeta e o investimento na sociedade. Quando uma companhia encontra a fórmula de equilíbrio entre os três, tem condições de se desenvolver sem causar estragos para o ambiente” diz.
Melhoria contínua em toda a cadeia
Zeila alerta o gigante que integrar a ecoeficiência na gestão dos negócios significa reconhecer que essa abordagem é boa para a empresa (negócios), para a sociedade e para o ambiente. “Em minha opinião, isso ainda não acontece. A maioria das ações desenvolvidas pelas empresas em geral está ainda atrelada às demandas compulsórias atinentes ao atendimento legal: licenciamento; demandas de mercado e demandas de organismos financiadores. Ainda não há a clara percepção de que as ferramentas da ecoeficiência podem promover a redução de custos e viabilizar a sua permanência no mercado. Só recentemente se percebe algumas ações no sentido de ter uma governança corporativa que considere esses aspectos/dimensões na gestão do negócio e não como um apêndice necessário para ‘prestar’ contas com a sociedade, consumidores, comunidades e órgãos de controle. Pode-se observar claramente isso quando se analisa as estruturas corporativas das grandes empresas, nas suas visões e missões, suas práticas de gestão e de remuneração, entre outros. Ainda se prioriza produção e retorno econômico com visão de curto prazo. Os profissionais da área ambiental são geralmente pior remunerados do que os das áreas produtivas, por exemplo. Os objetivos estratégicos normalmente não consideram a dimensão ambiental; os programas de remuneração variável e participação nos lucros e resultados não consideram a ecoeficiência. O estudo e projeto de novos produtos considera de forma incipiente a ecoeficiência no seu design. Ainda há pouco ou nenhuma preocupação com a destinação final dos produtos, por exemplo, e/ou com os impactos associados a toda a cadeia produtiva”, opina a consultora.
A fundadora da Apoena Assessoria Ambiental acrescenta ainda que a ecoeficiência na gestão dos negócios significa também conhecer e implementar as ferramentas da ecoeficiência visando a melhoria contínua em toda a cadeia produtiva. “Como decorrência do contexto acima, a maior parte das empresas ainda utiliza pouco as ferramentas de ecoeficiência. Na grande maioria, a visão/gestão fica restrita somente ao processo produtivo em termos de atendimento legal e gestão (ISO 14001) e não envolve, na sua maior parte, os serviços terceirizados”, argumenta a profissional. De acordo com ela, a avaliação de desempenho ainda é deficiente, assim como a transparência e divulgação e discussão do seu desempenho ambiental. O segmento de produção de celulose e papel, no entanto, embora tenha ainda muitas oportunidades de melhorar e otimizar suas práticas, é um dos poucos que já utilizam parte das ferramentas de ecoeficiência. A maioria das fábricas produtoras de celulose e papel adota o uso das melhores tecnologias no seu processo produtivo; há uma abordagem de gestão dos aspectos ambientais que envolvem parte da cadeia produtiva, em especial produção florestal e processo de produção de celulose/papel. A maioria das empresas tem sistemas de gestão ambiental certificados pela Norma ISO 14001; os maiores produtores florestais estão certificados ou em processo de certificação florestal segundo normas nacionais e internacionais (Cerflor e FSC). Estão acontecendo iniciativas importantes no âmbito de discussão com a sociedade civil organizada sobre uso e ocupação do solo/manejo florestal, por intermédio do Diálogo Florestal, por exemplo.
Conforme avaliação de Zeila, as oportunidades de melhoria estão associadas com: melhoria do manejo florestal (porcentagem de área preservada e porcentagem de área utilizada para os plantios, uso de práticas sistematizadas de monitoramento ambiental de médio e longo prazo que orientem as práticas de manejo tanto em áreas próprias quanto nas de fomento), revisão das práticas de fomento florestal, demarcação e restauração das áreas de reserva legal; revisão das práticas corporativas e da governança em termos de transparência; diálogo com as partes interessadas e inclusão da dimensão ambiental na gestão efetiva do negócio; uso de ferramentas como a contabilidade ambiental e análise do ciclo de vida que permitirá uma abordagem e controle mais efetivos dos impactos ambientais e, principalmente, correlacionar à melhoria o desempenho ambiental com os custos de produção e demais custos associados. Zeila ainda lembra que é preciso suportar o estabelecimento de políticas públicas que visem premiar e estimular a ecoeficiência.
Cannaval, da International Paper, sabe que se o mercado perguntasse sobre certificação florestal há 20 anos a reposta estaria na ponta da língua. “Duas décadas depois, o papel continua sendo o mesmo, mas a matéria-prima se desenvolveu muito. Quero dizer que não inovamos tecnicamente o produto papel; desenvolvemos o processo que resulta o produto. A produção de papel talvez seja uma das atividades mais antigas feitas pelo homem. Ao olharmos dois papéis iguais, com processos técnicos adequados, a matéria-prima de um pode ter vindo de um país desmatado ilegalmente e o outro produzido aqui no Brasil. Para um leigo eles podem ser iguais, mas seus DNAs são diferentes”, avisa.
Ecoeficiência e competitividade: binômio perfeito
Iniciativas pioneiras em relação ao ambiente trazem benefícios às empresas. Aliar a ecoeficiência à competitividade e à lucratividade é o objetivo de todos. “Diversos clientes exigem selos que atestem a política sustentável da companhia. Ao longo de vários anos essa preocupação socioambiental contribui para a criação de diversas tecnologias. Somos, com certeza, referência em inovação porque também somos reconhecidos como ecoeficentes. Por exemplo, a VCP possui um programa de fomento e de geração de renda para pequenos agricultores que é altamente inovador no sentido de propiciar inclusão social a partir do desenvolvimento nas áreas rurais. Batizado de Poupança Florestal, o programa inclui entre seus beneficiários centenas de pequenos e médios produtores do Rio Grande do Sul. Recentemente essa iniciativa foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das melhores práticas mundiais de geração de renda e combate à pobreza”, conta Bulgarelli.
O gerente comercial do Grupo Bignardi acredita que a conscientização da sociedade para ajudar na preservação do planeta deve atingir todos os segmentos produtivos. “A sociedade começa a exigir produtos que estejam nesse contexto; as empresas que não tiverem esse conceito terão limitações”, avisa Viana.
Amoroso concorda: “Sim, proporciona maior competitividade uma vez que a ecoeficiência é mais um diferencial a ser agregado à empresa e o valor desse diferencial vem crescendo ininterruptamente nos últimos anos. Já há algum tempo vemos os consumidores de fora, principalmente os europeus, buscando produtos ecologicamente corretos. Os brasileiros também começaram a dar importância para esse aspecto e o mercado de produtos sustentáveis está crescendo. Acredito que em poucos anos as empresas que hoje não têm preocupação com ecoeficiência estarão mais atentas e terão que se adaptar, pois a tendência natural é de que a cobrança aumente.”
Qualidade da celulose
Mundialmente, a celulose brasileira é considerada de excelente qualidade porque propicia a produção de papéis com brancura elevada. Isso acontece em função de ser originada de eucalipto. Entretanto, essa mesma espécie de árvore é vista por muitos ambientalistas com ceticismo, levando em conta o empobrecimento do solo onde é cultivada. Cannaval é enfático: “Mito, puro mito. E afirmo com propriedade, pois mesmo sendo do marketing sou formado em engenharia florestal e passei muitos anos nas florestas da International Paper. Quando se fala em empobrecimento quer dizer que tínhamos uma boa condição inicial e depois exaurimos os nutrientes do solo. A floresta absorve, sim, nutrientes. Entretanto, como na agricultura, os nutrientes são repostos. Fazemos isso há meio século e comprovadamente aumentamos a produtividade da floresta. Uma terra exaurida produz menos. Não é só a International Paper; são todos. O setor florestal registra somente ganho de produção. Temos provas cabais que a exaustão do solo é um mito e quem diz isso nunca nuca acompanhou florestas. Convidamos os céticos para provar que não há exaustão em nenhuma floresta nossa”, desafia Cannaval.
Viana concorda com a definição mito: “Existem muitos mitos sobre o eucalipto e vários estudos estão sendo publicados pelos fabricantes de celulose que dizem o contrário. Creio que o bom senso, aliado a novas tecnologias e estudos genéticos, deve clarear esse assunto.” Bulgarelli é outro profissional do mercado que se baseia em estudos que derrubam a tese do empobrecimento do solo. “Além de ser um importante elemento no processo de seqüestro de carbono, as florestas de eucalipto hoje são manejadas por meio de técnicas de silvicultura. Isso significa que diversificamos os plantios de outras culturas em meio às florestas plantadas. Os agricultores fomentados mantêm, no meio da área de produção, culturas de trigo, feijão e mandioca, além da criação de animais. Isso garante renda aos produtores e contribui para a diversidade da fauna e flora locais”, opina o consultor de marketing da VCP.
O presidente do Grupo Orsa fala que um dos itens que figuram entre as prioridades em pauta na Jari Celulose - empresa do grupo que responde pela produção de celulose branqueada - é o investimento na criação de iniciativas e na implantação de procedimentos que minimizam o impacto causado pela colheita do eucalipto, interagindo de maneira sustentável tanto com a comunidade local como com o ambiente. “Seguimos à risca a filosofia de gestão social e ambientalmente responsável, tanto que a Jari Celulose é hoje uma das únicas empresas do segmento no mundo a deter a certificação FSC Pure Label, ou seja, a única certificação para 100% de sua produção ao longo de toda a cadeia de custódia”, informa Amoroso. |