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Artigo - Edição 80
Sumário
O destino dos gráficos
 
Por Mário César de Camargo*
 

Quando o alemão Johannes Gutenberg pela primeira vez imprimiu um livro (a Bíblia) com tipos móveis, em 1455, a Europa tinha cerca de 50 milhões de habitantes, dos quais apenas 8 milhões alfabetizados. Não foi casual que, alguns anos depois, quase 20 milhões de pessoas do Velho Continente já soubessem ler. Parece óbvio que a democratização do livro, com sua produção em escala e menor preço, incentivou o hábito da leitura.

A rigor, as artes gráficas transformaram um privilégio em direito, revolucionando costumes, sistemas políticos, relações sociais, leis e o exercício do civismo. Afinal, a democracia é filha da consciência! Portanto, não é sem razão o fato de Gutenberg figurar entre as cem mais importantes personalidades do mundo em todo o segundo milênio, conforme registrou pesquisa mundial realizada ao cabo do ano 2000.

Entender com clareza a profunda transformação histórica, sociológica e política desencadeada pela capacidade de imprimir é fundamental para se dimensionar com precisão o significado da indústria gráfica na civilização globalizada do século 21. Nosso setor de atividades tem a mesma imensa importância para o homem contemporâneo quanto a prensa de Gutenberg para aqueles 50 milhões de europeus do século 15. Sim, pois a comunicação gráfica, mais do que qualquer outro meio, continua sendo um referencial da humanidade para a troca e disseminação de conhecimento. Multiplica-se em numerosas mídias, as quais interagem com as pessoas no dia-a-dia, passando-lhes gigantesca quantidade de informações.

O impresso viabiliza a leitura em tudo o que as pessoas podem ver, tocar, usar e sentir, ou seja, jornais, livros, revistas, cadernos, manuais de produtos e automóveis, embalagens, rótulos, bulas de remédios, cheques, cartões de crédito e débito, o dinheiro, o alto relevo do braile, cartazes, sinais de trânsito, notas fiscais... Tudo isso é mídia difusora de informação! Nenhum outro sistema comunicacional reúne soma tão grandiosa de conteúdo.

Assim, muito mais do que herdeiros de Gutenberg, somos continuadores de sua obra. Sem falsa modéstia, a homenagem que o genial alemão recebeu como uma das cem pessoas mais importantes do milênio, além de justa, cabe a todos nós, gráficos, incluindo os empresários que empreendem no universo dessa arte, os impressores, tipógrafos, arte-finalistas, diagramadores e cortadores e outros profissionais. Temos a mesma estirpe, vocação e missão. Transformar papel em conhecimento, arte e produtos úteis é uma profissão de fé, que fizemos há 553 anos, quando Gutenberg imprimiu o primeiro livro. Talvez haja toda uma simbologia no fato de ter sido ele uma Bíblia...

No Brasil, nossa crença na comunicação gráfica é professada desde 1808, quando D. João VI criou a Imprensa Régia no Rio de Janeiro. São 200 anos de trabalho árduo, nos quais, muito mais do que espectadores, fomos testemunhas, agentes e depositários do conhecimento histórico.

A indústria gráfica tem passado, registra o presente e já vislumbra o futuro. Jamais abdicaremos do destino ao qual Gutenberg nos sentenciou, missão cuja síntese é emblemática e conclusiva: situar o homem no seu tempo e espaço, outorgando-lhe a cidadania com a autoridade legítima da informação!

* Mário César de Camargo, empresário gráfico, administrador de empresas e bacharel em direito, é vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf)

 
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