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Crônicas da indústria gráfica - Edição 78
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Será mesmo o fim do livro impresso?

 

Marcelo Nocelli*

 

Esse tema vem sendo discutido por escritores, jornalistas, empresários e profissionais do mercado gráfico, especialistas da informática e da internet, leitores e tantas pessoas que se interessam pelo assunto, seja por curiosidade, por nostalgia ou por milhares de pessoas que têm nele sua forma de sobrevivência, já que a produção de um livro impresso depende do trabalho de dezenas de pessoas, desde o próprio escritor, passando pelo editor, profissionais da área editorial, revisores e tradutores, diagramadores, pré-impressão, impressores gráficos, acabamento, logística, distribuição e vendedores, até chegar ao leitor, o consumidor final desse produto.

Com a evolução da informática e da internet, alguns especialistas apontam para o fim do livro impresso. Seu sucessor seria o e-book. Com ele, os títulos podem ser lidos na tela do computador, ou num pequeno aparelho (leitor de textos) com capacidade para armazenar mais de duzentos livros; além disso, esse pequeno aparelho já vem com dicionário, tradutor de inglês, o que torna possível traduzir obras inteiras para leitura, e ainda tem capacidade para reproduzir músicas e até textos em áudio MP3.

Alguns títulos serão distribuídos (baixados da internet) gratuitamente, e os títulos pagos sairiam bem mais baratos que os livros impressos, uma vez que não existirá o custo do papel, nem da impressão e distribuição, nem o risco de ficar mofando nas prateleiras das livrarias. O usuário poderá pesquisar títulos, autores, data de edições e qualquer informação sobre qualquer título, claro pagando pela conexão à internet. Também será possível,  segundo os especialistas, comprar livros por capítulos. Imagine só: se você não gostar nos primeiros capítulos, é só parar de ler e não comprar os seguintes. O usuário também poderá votar e analisar os resultados dessas obras em relação a sua qualidade e interesse dos demais leitores por meio de fóruns virtuais.

Realmente é algo interessante e revolucionário. Eu, particularmente, gostaria de ter um desses. Mas confesso que usaria para consultas, busca de títulos, obtenção de mais informações sobre determinadas obras. Realmente é algo inovador, e para qualquer pessoa que se interesse por novas tecnologias será um item prioritário de compra.

Sem questionar, elogiar ou criticar o novo formato, são necessárias algumas observações, principalmente para aqueles que, como eu, são apaixonados por livros, de modo inclusivo, em sua estrutura física. Gosto de passar horas numa livraria, escolher, analisar, olhar, tocar, ficar na dúvida se levo um ou outro, talvez apertar um pouco mais o orçamento e levar os dois. Sinto necessidade de tocar o livro antes de decidir por levá-lo para casa. Parece pouco, mas não é. Ver os detalhes da capa, ler dedicatórias, observar a fonte em que foram escritos, entre tantos outros pormenores.

Também não podemos esquecer que esses pequenos aparelhos, como todos os eletrônicos, estão sujeitos a interromper seu funcionamento no meio de uma leitura interessantíssima por falta de energia ou bateria, pane no sistema ou quebra. Nada disso acontece com o livro impresso.

Também seria o fim das bibliotecas reais e, conseqüentemente, das livrarias. As grandes coleções normalmente comercializadas por jornais e editoras em distribuições semanais seriam reduzidas a apenas um CD, uma vez que textos ocupam pouquíssimo espaço em formatos como PDF. Sem falar na economia do espaço físico: guardar, organizar e encontrar arquivos digitais é uma tarefa bem mais simples que procurar livros impressos em estantes lotadas.

Toda vez que temos uma novidade, discute-se a possibilidade de o antecessor cair por terra. Quando apareceram os primeiros textos escritos, chegou-se ao absurdo de decretar o fim da comunicação pela fala. Com o surgimento do cinema, cogitou-se o fim do teatro. Quando Graham Bell inventou o telefone, decretaram o fim das cartas escritas, foi assim também no surgimento do fax e do e-mail. Na estréia da televisão, os primeiros comentários eram de que o rádio já era. E nada disso aconteceu. Na chegada da internet e dos noticiários on-line nos provedores foi decretado o fim do jornal impresso. Ledo engano, pois o contato com o noticiário no formato jornalístico divulgado pela internet acabou despertando a curiosidade e interesse de novos leitores pelos jornais impressos. Acredito que acontecerá o mesmo entre os livros impressos e os e-books. O livro eletrônico não veio para acabar com os impressos, mas para se complementarem, pois ambos apresentam vantagens e desvantagens em relação ao outro. Quem sabe, assim como aconteceu com o jornal, o e-book não possa despertar o interesse pela leitura e até aumentar o consumo dos livros impressos, pois facilitará a divulgação logo após o lançamento de novas obras, tornará acessíveis livros de autores fora da mídia e desconhecidos da grande maioria dos leitores, dificilmente encontrados nas grandes livrarias. Em resumo, tornará os livros, impressos ou eletrônicos, mais acessíveis àqueles que não têm o costume de freqüentar livrarias. Além do mais, como disse o grande escritor José Saramago, “uma carta de amor enviada por e-mail nunca poderá ser perfumada, marcada por um beijo com batom, ou molhada por uma lágrima”.

*Marcelo Nocelli é escritor - assina o livro “O Espúrio” - e é profissional do mercado gráfico

 
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