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Crônicas - Edição 77
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Há bens que vêm para males
 

Miriam Mazzi*

 

A paixão é daqueles sentimentos que começam a se manifestar na mais tenra infância para, anos depois, aflorar em sua plenitude. Assim foi com o meu carinho pelas bonecas. Elas, que naquela época não tinham a menor noção do quanto repercutiriam na minha trajetória profissional, foram-me apresentadas por intermédio de pôsteres, por sinal muito bem impressos, em papel couché brilhante e cores vibrantes.

O cupido desta história de amor foi meu padrinho, Rodolfo Teixeira, um filho de imigrantes portugueses, baixinho e atarracado, que nos idos da década de 70 trabalhava como vigia em uma gráfica. E não era qualquer uma não. Tratava-se de uma grande empresa do setor, situada no paulistano bairro do Cambuci, então o maior pólo gráfico da América Latina e berço da indústria gráfica em São Paulo.

Simpático e falante como ele só, o “Dindinho” - como carinhosamente o chamava - tratou de se aproximar do pessoal de chão de fábrica, um grupo de impressores que virava noite para entregar os folhetos no prazo estabelecido, com a indisfarçável intenção de lhes subtrair um daqueles belos impressos. Afinal, contava ele, com pompa, tempos depois: não era um impresso qualquer, mas um lindo material de divulgação para a nova linha das famosas e desejadas bonecas da Estrela.

O Dindinho, casado há duas décadas, era pai de dois rapazes e sua felicidade foi ter sido escolhido para me apadrinhar. Dá para concluir, então, que fui eu a feliz ganhadora daqueles cartazetes, que convidavam a sonhar todas as garotinhas brasileiras com idades entre 6 e 10 anos.

Lembro-me como se fosse hoje do quão impressionada fiquei com a qualidade daquela impressão (desculpe o trocadilho). Na oportunidade, ainda não havia decidido seguir a carreira de jornalista, muito menos poderia supor que trabalharia em imprensa especializada e focada no mercado gráfico. Tampouco sabia algo sobre aquela gráfica que havia imprimido o início de um conto mágico.

Anos bem mais tarde, já escrevendo sobre e para o mercado gráfico, soube que a tal gráfica havia, como tantas outras, fechado suas portas. Reflexo do acirramento da concorrência e de uma guerra predatória em torno da redução de preços, muitas gráficas, em sua maioria de estrutura familiar, sucumbiram. Não foi diferente com a que transformava em folhetos os sonhos de consumo das meninas da minha geração.

A beleza daquele produto impresso continuou a ressoar em minhas lembranças. E alimentou, ao longo dos anos, a paixão pelas bonecas, assim como a que comecei a nutrir, ainda inconscientemente, pelas artes gráficas.

Hoje, a nostalgia é companheira minha e da indústria gráfica brasileira. E há bons motivos para tal: a tecnologia desenhou novos perfis para o mercado gráfico e colocou no porão muitas das bonecas convencionais. Para um e outro houve avanços incontestáveis. Mas confesso saudade do artesanal prazer de brincar de boneca. Certamente, o mesmo deve sentir o gráfico que perdeu o emprego para uma impressora com seis torres, comandada por um simples toque na tela de cristal líquido.

Como profetizava o Dindinho, “o progresso traz muito benefício, mas leva um pouco do encantamento.”

 
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